Valentino Garavani (1932–2026) – O Último Imperador da Alta Costura. Homenagem por Eleonora de Gray, Editora-Chefe de RUNWAY REVISTA.
Valentino Garavani faleceu hoje em sua residência romana, cercado por seus entes queridos. Com ele, deixa não apenas um homem, mas toda uma civilização da alta-costura — uma disciplina construída sobre a disciplina, uma beleza construída sobre a contenção e uma extravagância refinada em eterna elegância.
Desde o início, Valentino entendeu a moda não como tendência, mas como destino.
“Eu tinha uma irmã e ela me levava ao cinema. Eu sonhava com mulheres lindas, extremamente sofisticadas, todas maquiadas, com joias belíssimas e vestidos deslumbrantes. Acho que, a partir dessa época, decidi que queria ser estilista.”





O cinema lhe deu o sonho. Roma lhe deu o palco. E a alta-costura lhe deu uma linguagem que poucos na história conseguiram dominar.
Nas décadas de 1960 e 70, quando a riqueza exigia espetáculo, Valentino respondeu com excessos controlados. Ele imaginou o impossível.
“No início da minha carreira… eu imaginava as coisas mais extravagantes: um casaco de arminho forrado com estampa de leopardo, capas de lince, o primeiro casaco de vison branco dos anos setenta. A palavra de ordem era: extravagância a qualquer custo.”
Contudo, ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Valentino evoluiu antes que o mundo o exigisse.
“Então chegou a hora da responsabilidade e da conscientização… Já que o mundo está ameaçado e é possível evitar o abate de animais, por que continuar matando?”
Isso não era marketing. Era consciência — algo raro numa época que celebrava os excessos sem consequências.
O gênio de Valentino nunca foi estridente. Era arquitetônico, disciplinado, preciso. Suas mulheres não usavam fantasias. Elas vestiam identidade.
“Uma mulher que se veste de preto e branco é uma mulher forte… uma mulher determinada. O tipo de mulher que eu admiro.”
Ele vestia-se com força, não com enfeites.
E enquanto a indústria corria em direção à velocidade, Valentino permaneceu fiel ao próprio tempo — às mãos, à paciência, ao artesanato que se recusa a ser industrializado.
“Minhas costureiras estão lá há muito, muito tempo… são as últimas dinossauros, fazendo esse tipo de alta costura… extremamente meticulosas… antiquadas… muito raras.”
Eles não eram dinossauros. Eram guardiões. E Valentino era o imperador deles.
A arte sempre o guiou. Não como citação, mas como estrutura. O rigor óptico de Vasarely, a geometria de Josef Hoffmann, a linha sensual de Aubrey Beardsley — tudo filtrado por um senso romano de proporção e um instinto para a feminilidade que jamais confundiu elegância com submissão.
“Eu faço roupas elegantes… e cada pessoa adiciona um toque um pouco extravagante.”
















Essa frase resume toda a sua filosofia: a alta-costura como fundamento, a personalidade como assinatura final.
Hoje, a moda perde um de seus últimos soberanos.
Não sou designer.
Um maestro.
Com Valentino Garavani, desaparece um mundo onde a alta-costura significava cultura, onde a beleza significava disciplina e onde a elegância não era um efeito, mas uma posição moral.
RUNWAY A revista presta homenagem a uma lenda.
E Roma, mais uma vez, torna-se eterna.
